Na Turquia, está a aumentar o número de mulheres que se suicidam para "lavar a vergonha" das famílias. Fecham-nas num quarto e dão-lhes veneno para ratos, uma pistola ou uma corda. São três de muitas opções. Os crimes de "honra" continuam a um ritmo de "mais de 5000 por ano". São cometidos em comunidades religiosas e não religiosas. E entre as vítimas também há homens. A religião não é a questão
O que é a "honra" que leva famílias a matar ou a exigir o suicídio das suas meninas e mulheres? Para a activista Meltem Agduk, "é uma questão cultural, mais do que religiosa". O problema, afirma, "é que os homens querem ter poder, porque prevalece uma relação de desigualdade numa sociedade patriarcal. Se as mulheres ignoram as regras estabelecidas pelos homens, estes consideram que é um ataque à sua honra e merece castigo."Na Turquia, adianta Agduk, "há dois tipos de líderes religiosos, um que está directamente subordinado ao governo e que considera 'um pecado' matar as mulheres para defender a 'honra'; e outro que está ligado a seitas islâmicas, mais moderadas ou mais fundamentalistas, que considera legítimo os assassínios e suicídios para lavar a 'honra' da família". A antropóloga norueguesa Unni Wikan, autora da aclamada obra In Honour of Fadime: Murder and Shame (ver segundo texto) explica ao P2, por e-mail, que "'honra' significa coisas diferentes em tempos e lugares diferentes" Para casos como o de Derya, em Batman, "a 'honra' depende do controlo social/sexual das mulheres da família. A honra é colectiva, partilhada por uma família ou clã, e pode ser perdida se uma rapariga ou uma mulher na família se comporta indecentemente. Neste sentido, a 'honra' é uma questão de reputação mais do que de comportamento. A 'honra', aqui, é uma questão de cultura ou tradição, não de religião, embora a religião possa ser usada ou abusada para apoiar noções específicas de honra." Há provas documentais, sublinha Wikan, de que os crimes de "honra" são cometidos entre cristãos, muçulmanos, hindus, sikhs, confucionistas, "assim como entre não-religiosos; a religião não é a questão".Na Índia, por exemplo, os crimes de "honra" representam mais de 10 por cento de todos os homicídios nos estados de Haryana e Punjab, no Norte, segundo a All India Democratic Women's Association (AIDWA). São mulheres e homens, mortos "em nome da família, da comunidade ou da casta". Um destes casos foi o de Geeta Rani, de Hoshiarpur (Punjab), cujo marido, Jasveer, foi morto por um grupo de homens da aldeia dela por pertencer a uma casta "inferior". Amputaram-lhe as mãos e as pernas antes de o assassinarem, segundo registos da AIDWA.
A Amnistia Internacional e as Nações Unidas calculam em mais de 5000 os crimes de "honra" cometidos em todo o mundo. "Em algumas sociedades, como o Paquistão, onde o número é de cerca de mil por ano, um terço das vítimas são homens", revela Wikan. "Os homens vítimas de crimes de 'honra' são habitualmente mortos pela família das mulheres, não pela sua."Do que já foi feito na Turquia, onde "a namus [honra] é um valor importante na sociedade", Meltem Agduk chama a atenção para o trabalho dos últimos 20 a 25 anos desenvolvido por ONG que lançaram campanhas contra os abusos, criaram refúgios para as vítimas e persuadiram o governo a envolver-se mais profundamente. "Se o código penal mudou, foi em grande medida graças à pressão destas organizações", frisou. Em 2005, por exemplo, foi criada uma comissão de inquérito parlamentar à violência sobre mulheres e aos crimes de "honra", em particular. "A comissão apresentou um relatório e logo a seguir o primeiro-ministro emitiu directrizes. Agora, polícias, juízes, conselheiros, assistentes sociais e outros recebem formação profissional para combater actos de violência sobre as mulheres."Agduk está particularmente orgulhosa, porque "cada vez mais mulheres se sentem encorajadas a ir à polícia - as queixas nas esquadras aumentaram -, por saberem que vão encontrar apoio do governo". "[Recentemente], acabámos um curso de treino de polícias, que envolveu uns 40 mil agentes", exultou.Apesar do caminho já percorrido, a coordenadora da ONU avisa que "este é um problema que só pode ser resolvido com uma mudança de comportamento - e isso vai demorar tempo a acontecer. Levará anos, senão mesmo séculos. Estamos a tentar educar os homens a insurgir-se contra a violência e os crimes de 'honra', mas só poderemos acabar com isto se houver uma mudança de atitudes. Estes crimes estão muito ligados à estrutura cultural da comunidade."Uma das acções que Agduk acredita virão a ser benéficas a longo prazo é o trabalho que, há cinco anos, vem fazendo junto das forças armadas. "O serviço militar é obrigatório na Turquia, onde todos os homens, entre os 18 e os 25 anos, têm de cumprir pelo menos um ano. O exército, pilar da sociedade, tem agora um curso obrigatório sobre violência contra as mulheres."Sobre os crimes de "honra" cada vez mais frequentes em países europeus, como o Reino Unido, a Holanda ou a Suécia, Agduk constata que "há uma tendência para os imigrantes serem mais conservadores do que se vivessem no seu próprio país". O imigrante "sente que tem de proteger a sua família dos 'perigos' da sociedade que o acolheu - é muito difícil de explicar!", acentua. Unni Wikan também reconhece que as tradições "são muito fortes em algumas comunidades imigrantes, e até se reforçaram na Europa". As razões "são complexas", prossegue a professora de Antropologia Social na Universidade de Oslo. "Há um fracasso da integração em muitas sociedades europeias, e há pressão dos familiares e dos membros dos clãs 'lá na terra' para se conservarem as tradições. Manter o controlo das suas mulheres pode ser mais importante na Europa, onde o casamento abre portas ao green card - seguramente o caminho mais fácil para entrar na Escandinávia."Por que é que tantos crimes permanecem desconhecidos? "Há um código de silêncio nas comunidades imigrantes com um forte código de honra", explica Wikan. "As pessoas não falam nem testemunham em tribunal. Muitos crimes são ocultados como acidentes ou suicídios; o sistema judiciário também falha no reconhecimento da natureza do crime, por não compreender nem conhecer o código de honra."Unni Wikan começou a interessar-se pelo fenómeno dos crimes de "honra" na Europa em 1996 quando Sara, de 16 anos, foi morta por um irmão e um primo, de 16 e 17 anos, respectivamente. As provas indicaram que os dois rapazes foram "contratados" para o assassínio por cinco adultos da família, incluindo os seus pais. A família provinha do Curdistão iraquiano.
Uma questão de reputação















