Esta já é considerada a maior tragédia climática da história país. O número de vítimas já ultrapassou as 436 registadas em 1967 na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.
A chuva que se abateu sobre estas regiões na noite de terça para quarta-feira foi tão intensa na região a norte do Rio de Janeiro que se estima que, em apenas uma noite, tenha chovido o equivalente ao previsto para todo o mês de Janeiro.
Como é que ocorrem estes deslizamentos de terras?
Um grande volume de chuva caiu nos últimos dias sobre os montes da região serrana do estado do Rio de Janeiro. Por sobre estes, a capa de solo de Mata Atlântica é muito instável. Em alguns sítios não ultrapassa o metro e meio de espessura. A vegetação também não consegue reter a enxurrada porque, por debaixo da capa de solo, as raízes das plantas não se conseguem agarrar à pedra. Quando a água encharca o solo, este desprende-se da rocha e resvala - como uma avalancha -, para níveis inferiores, onde abundam as construções.
Por que é que o impacto das catástrofes naturais é diferente em países como o Brasil e a Austrália?
As realidades sociais influenciam também o impacto das catástrofes. Basta comparar a situação vivida no No Rio de Janeiro e no Nordeste da Austrália.
Até a cor da água do Brasil é diferente do lago que se formou na Austrália. As torrentes que arrastaram casas, pessoas, árvores e carros das cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, eram lamacentas. A água das cheias na Austrália, não.
As chuvadas que caíram no Brasil mataram pelo menos 500 pessoas e produziram um cenário muito mais desolador. Na Austrália terão morrido 15 pessoas.
O que se passou na região do Rio de Janeiro é fruto da ausência de ordenamento do território, nomeadamente da urbanização desenfreada e que privilegia os mais favorecidos (que habitam nas melhores zonas das cidades e as mais seguras) e expulsa para a periferia as pessoas mais pobres, que acabam por ocupar áreas de risco em zonas com grande declive, que foram previamente desflorestadas, o que faz aumentar a escorrência superficial, o risco de enxurradas e de deslizamentos de terrenos. Este risco tem aumentado de há 20 anos para cá, devido à explosão urbana cada vez mais desordenada, impermeabilizando artificialmente os solos. A água acaba por infiltra-se em zonas preferenciais onde não há casas e os terrenos impermeáveis apanham com água a dobrar.
Já a Austrália, um país desenvolvido e ordenado, existem políticas de combate contra as catástrofes naturais. As construções estão preparadas para os fenómenos excepcionais que têm potencialidade de causar tragédias.
Por outro lado, o Brasil tem uma densidade populacional muito maior com uma população pobre muito grande em situações de maior risco, tornando mais propenso este tipo de acontecimentos. Todos estes factores se conjugam para que uma situação de calamidade aconteça. A solidez das estruturas e os sistemas de resposta é muito maior na Austrália do que no Brasil. Estas situações têm mais que ver com a organização da sociedade e o serviço público do que com a riqueza per capita.
Como é que se pode resolver estas situações e diminuir os riscos de novas catástrofes como esta que ocorreu no Brasil?
É possível mudar com uma política urbana, que privilegie um maior ordenamento das urbanizações, com acções que favoreçam a drenagem, com a criação de mais espaços verdes e com a recuperação da mata, com o combate à impermeabilização artificial dos solo e a limpeza dos leitos dos cursos de água e das sarjetas. Só o ordenamento pode evitar nova tragédia.
Fonte: Público
O vídeo que se segue mostra algumas reportagens sobre esta tragédia e ainda algumas explicações sobre as causas da mesma.















