domingo, 30 de dezembro de 2007

O atentado a Benazir Bhutto


Um atentado que pode levar à implosão política do país

28.12.2007, Jorge Almeida Fernandes

O que está em jogo não é apenas o processo de democratização, mas um desastre para a política americana no Afeganistão e todo o Médio Oriente
O assassínio de Benazir Bhutto ilustra o lugar-comum mais usado desde há muitos anos para definir o Paquistão: "uma bomba-relógio". Os primeiros comentários não assinalavam apenas a liquidação do sonho duma relativa estabilização democrática, interrogavam-se também sobre as consequências do crime na região, e para lá dela. Sintomaticamente, a lista dos suspeitos era muito vasta. Se à primeira vista os radicais ligados à Al-Qaeda, que ameaçaram directamente Bhutto, eram os favoritos, alguns ramos dos poderosos serviços secretos militares - Inter-Services Intelligence (ISI) - não escapavam à suspeita. Não está em jogo apenas a sorte do Paquistão. "É um profundo desaire para a "guerra ao terror" dos EUA, que tinha como parte da sua estratégia na região a restauração da democracia no Paquistão, para oferecer um caminho alternativo ao extremismo", observou o analista Paul Reynolds, da BBC. A campanha pela democratização do Paquistão partiu do interior das elites, de que a rebelião dos juízes foi o ponto mais saliente. No entanto, foi persistentemente impulsionada pelos Estados Unidos: estando o regime do general Musharraf completamente desacreditado e deslegitimado, era necessário encontrar uma alternativa. Nestes termos, o objectivo primacial de Washington não era a democracia mas a segurança. Daniel Mackay, antigo responsável no Departamento de Estado, expôs na Foreign Affairs um modelo que assentava na necessidade de democratização "sem pôr em causa os interesses fulcrais dos militares" que, desde os anos 1960, exercem um papel tutelar sobre as instituições políticas. "O problema real (...) é que uma genuína democracia civil no Paquistão é uma aspiração irrealista a curto prazo."Nesta linha, o que Musharraf desejou negociar com Bhutto era uma solução de compromisso, em que ela poderia "governar", deixando nas mãos do Exército as decisões fulcrais sobre segurança e política externa. Benazir soube interpretar a vontade popular de mudança. Moveu não só as elites que pretendem afastar os militares da cena política e impor o corte radical com o extremismo islâmico que ela prometeu, mas também multidões, que aspiram a mudar a cúpula política e uma prática que desvia para a Defesa a maioria dos recursos do país, um dos principais factores de bloqueio económico.Independentemente de ainda pouco ou nada se saber sobre a conspiração, a simples realização de eleições, com a previsível vitória de Bhutto, ter-se-á tornado numa ameaça intolerável.
Aliança dúplice
A preocupação de que o analista da BBC fazia eco vai muito para lá do Afeganistão e da implantação da Al-Qaeda nos territórios de fronteira do Paquistão. Este país está situado naquilo a que se tem chamado uma "zona de fractura geopolítica", tocando a Índia, o Afeganistão, o Irão, o conjunto do Médio Oriente. É um país desigual e instável por natureza - e dotado de armas atómicas. O medo da Índia fez do Paquistão um aliado fácil dos Estados Unidos. Como dizem os especialistas, esta aliança nunca foi uma "opção ideológica". Se os dirigentes paquistaneses sempre tiveram a noção que Washington usava para com eles de uma atitude "dúplice", o mesmo pensam os americanos. Com a invasão do Afeganistão pelos soviéticos, Islamabad ganhou autonomia e tratou de promover a instalação do regime taliban no país vizinho, consumada em 1996, assim realizando o desígnio de conquistar uma "profundidade estratégica" perante a Índia. O preço foi fazer do Paquistão um território de eleição para a Al-Qaeda e outros "jiahdistas". Após o 11 de Setembro e a queda de Cabul, Islamabad perde quase tudo o que investira. O general Musharraf tem de se inclinar perante o ultimato americano. Mas, de forma hábil, consegue uma fabulosa ajuda financeira que salva o regime da bancarrota, continuando encapotadamente a manter uma estreita relação com os islamistas, seus aliados políticos.O assassínio de Bhutto destrói o quadro político idealizado para estabilizar o Paquistão, que passava por um pacto com Islamabad: neutralidade no Afeganistão e combate às milícias islamistas e redes de madrassas extremistas, que estão a "talibanizar" parte do país. Os islamistas são minoritários, mas estão na ofensiva.
Nacionalismo sem nação
A mais temida ameaça é que a instabilidade do Paquistão conduza a uma "implosão". Um analista do israelita Ha'aretz traçou há um mês o quadro apocalíptico de um 2008 dominado por uma dupla crise de proliferação nuclear, a iraniana e a paquistanesa. "Com um Paquistão em turbulência, economicamente falido, com o poder a cair nas mãos de vários grupos, incluindo elementos transviados do poderoso ISI, com conhecidos laços com os extremistas islâmicos, a proliferação nuclear é provável." É um ponto de vista israelita, mas com muitos ecos em Washington.O problema paquistanês começou na própria fundação. Foi criado como o Estado dos muçulmanos do subcontinente indiano e definido pelo fundador, Mohammad Ali Jinnah, como um Estado laico. Mas, perante a fraqueza de uma "identidade moderna", a identidade islâmica acabou por prevalecer. Para Christophe Jaffrelot, um dos grandes especialistas do Paquistão, o equívoco islâmico, o estatuto dos militares e o bloqueio da democracia provêm de um facto: o Paquistão é "um nacionalismo sem nação".

Fonte: http://jornal.publico.clix.pt/ (artigo de opinião)

Elabora um comentário à morte de Benazir Bhutto, reflectindo sobre as suas possíveis consequências para o futuro do Paquistão, bem como para os países vizinhos, nomeadamente o Afeganistão, a Índia e o Irão.

2 comentários:

Soraia disse...

Corrupção- 2ª temporada

Bem…relativamente a este post, confesso que este é um tema que não é muito aliciante para mim, o que significa que o meu comentário não será tão “emotivo” como os restantes.
Mais uma vez, o mundo assistiu impávido ao assassinato de mais um (neste caso uma) líder de um povo.

A morte de Benazir Bhutto, reflecte a instabilidade que se vive no Paquistão, um dos dois Estados que se criou com a dissolução do império colonial britânico na Índia.
Benazir Bhutto era filha de Zulfikar Ali Bhutto do Partido Popular Paquistanês (PPP), antigo primeiro ministro do Paquistão, sendo que este teve um papel muito importante durante o seu governo, tendo tomado medidas como a nacionalização, principalmente de indústrias de base, e um ambicioso projecto de reforma agrária, medidas estas que não agradaram nem aos empresários (ressentidos com as nacionalizações), nem aos religiosos que não aceitavam esta política com tendências socialistas.
Ali Bhutto foi julgado e condenado à morte pelo suposto assassinato de um rival político do PPP e apesar dos apelos do Ocidente, o ex-primeiro ministro foi enforcado em 1979.

Vinte e oito anos depois a situação repete-se. A filha de Ali Bhutto, Benazir Bhutto foi assassinada com um tiro no peito e outro no pescoço, quando desfilava no seu carro, seguida por milhares de simpatizantes. É sabido que um dirigente da Al-Qaeda no Afeganistão, reivindicou a responsabilidade pelo acto. Nascida a 21 de Junho de 1953, Benazir Bhutto, formada em advocacia, foi primeira ministra do Paquistão por duas vezes: a primeira entre 2 de Dezembro de 1988 e 6 de Agosto de 1990; a segunda entre 18 de Julho de 1993 e 5 de Novembro de 1996.No entanto em ambos os mandatos, Benazir foi deposta do cargo, acusada de abuso de poder, nepotismo e corrupção (já o seu pai havia sido deposto do cargo pelos mesmos motivos…”quem sai aos seus não degenera”).

Benazir foi educada em Harvard e Oxford, no entanto voltou ao Paquistão em 1977, quando o seu pai foi deposto do cargo e mais tarde executado. Após a morte de seu pai Benazir tomou a liderança do PPP. Para escapar a processos que corriam na justiça, devido às acusações de corrupção que lhe foram feitas, Bhutto exilou-se em Londres e no Dubai.
A 5 de Outubro de 2007, o presidente Musharraf concedeu-lhe anistia e oito anos depois de se auto-exilar, Benazir volta ao Paquistão. Voltou para morrer, quase três meses depois, como todos sabemos.

É então altura de avaliar as consequências que advirão da morte da ex-primeira ministra.
A morte de Benazir, foi não só um atentado à vida, mas também à democracia, visto que a líder da oposição era tida como provável vencedora das eleições. Agora que a candidata foi assassinada a democracia é posta em causa, pois num país em que o poder sempre passou de pai para filho, era um grande passo no sentido da democratização do Paquistão, existirem eleições livres de facto. A estratégia de democratização do Paquistão, por parte dos EUA, foi quanto a mim, “por água abaixo”, pois considero que com a morte de Benazir a criminalidade e a insegurança, voltarão a aumentar e será cada vez mais difícil encontrar estabilidade.

Por um lado, se Benazir tivesse vivido para ganhar as eleições, talvez fosse possível mudar a prática que desvia grande parte dos recursos do país para a defesa, o que é um obstáculo ao desenvolvimento económico e ainda impor um corte radical com o extremismo islâmico.

Por outro lado, o dinheiro ser desviado para fins de defesa ou “cair” directamente nos bolsos da líder da oposição iria dar ao mesmo, pois de uma forma ou de outra nunca seria bem empregue.

Bem…não me vou alongar mais sobre este assunto, até porque acho que esta novela ainda terá muitos episódios… e cada vez será mais difícil perceber quem são os actores…

Espero sinceramente que tudo se resolva pelo melhor, mas enquanto as pessoas não tiverem noção de que a sua liberdade termina onde começa a dos outros, a situação nunca mudará.

Rute Cruz disse...

O atentado a Benazir Bhutto e as possíveis consequências para o futuro do Paquistão

Sendo este um acontecimento bastante trágico e perturbador, pois falamos de um atentado que tirou a vida a uma importante personalidade politica do Paquistão, mas, no entanto, não só a esta como também acabou por provocar mais vinte mortos, resultantes da explosão provocada logo depois do tiro disparado, para de forma intencional e premeditada, matar Benazir Bhutto. Há então que lamentar estes horríveis incidentes, que acontecem em alguns países onde ainda falam mais alto as vontades extremas e prejudiciais à vida dos outros, como é o caso do Paquistão.

Benazir Bhutto era uma importante política paquistanesa, que liderava o seu partido, o Partido Popular do Paquistão (PPP), e que por sua vez consiste no maior partido da oposição. Por isso, e na opinião de muitos, era necessário eliminar tal pessoa. Só que a historia já vem de trás, pois o seu pai já tinha sido primeiro-ministro do Paquistão, entre 1971 e 1977. Foi executado em 1979 e desde logo, Benazir Bhutto, juntamente com a sua mãe, assumiu a liderança do PPP. Pouco depois é presa, confirmando-se a opinião de que era necessário um certo afastamento desta. Afastamento conveniente para alguns. Depois de libertada em 1984 partiu para o exílio, tendo este como destino o Reino Unido. Voltou em 1986 para liderar o PPP e em 1988 ganhou as eleições e tornou-se na primeira premiê. Com isto foi também a primeira mulher a exercer um alto cargo no governo no Estado muçulmano moderno. Exerceu este cargo duas vezes, pois tornou a ganhar as eleições em 1993. Exilou-se novamente em 1999 e voltou em 18 de Outubro de 2007, para ao fim de meses da sua chegada, ser o alvo já há muito desejado, que foi preciso eliminar. Assim aconteceu tragicamente o atentado à sua vida.

Este acontecimento trouxe ao Paquistão bastantes consequências negativas. O povo, na sua maioria, apoiante do partido liderado por Benazir Bhutto, tinha esperança que esta continuasse a política já por si anteriormente exercida e que na opinião do povo paquistanês, parece ser a melhor e a que mais defende as liberdades e dos direitos humanos neste país. Por isso a sua morte provocou tantos conflitos e revoltas um pouco por todo o seu país, pois foi-lhes dada a notícia de um trágico acontecimento que veio acabar com a sua esperança por um futuro e por ideias politicas muito opostas às que actualmente se vivem no Paquistão. Justifico esta minha opinião pois o presidente actual deste país, Musharraf, tem uma posição bastante central e controladora no governo paquistanês. É o actual presidente do Paquistão, e também controla toda a realidade militar paquistanesa. Tem por isso, nas suas mãos meios suficientes para tudo poder controlar de uma forma bastante acessível. Relembro, o Estado de Sitio que decretou o ano passado. Por uma razão não uma muito satisfatória foi capaz de decretar Estado de Sitio no seu país, salvo erro, por uma polémica confusão em relação às eleições que se iriam realizar agora em Janeiro, posteriormente adiadas devido ao atentado.
Na minha opinião este atentado a Benazir Bhutto chegou na altura certa para o actual presidente Musharraf, tendo em conta que as eleições que tanto temia se estavam a aproximar.

Atribuem-se vários culpados, entre eles a Al-Qaeda. No entanto, e não deixa de ser verdade, a própria vitima foi um pouco inocente, quando colocou parte do corpo de fora do veículo em que seguia. Veiculo esse que era de extrema segurança, conforme aquilo que pretendia Benazir Bhutto. Numa situação destas não deveria de ter arriscado tanto.

Tendo em conta as possíveis consequências para o Paquistão, uma delas já referi e prende-se com os vários conflitos sócias que esta situação causou entre os populares, bem como o terminar de uma esperança, já há muito desejada de ver mudar o actual sistema do governo, alterando as suas principais prioridades para áreas muito mais em prol do desenvolvimento e não só a tamanha preocupação com a defesa que origina um verdadeiro bloqueio económico. Situação actual do Paquistão, a nível económico. Podemos dizer que em vez de progredir, o Paquistão esta a agravar os conflitos nas áreas mais vitais de uma sociedade. Por outras palavras, vive no meio de um caos político, económico, social e religioso.

Falando de políticas e de relações internacionais, o Paquistão prende-se ainda com importantes preocupações já antigas, nomeadamente, com o Afeganistão, Índia e o Irão. São países que tem fortes questões bastante temidas uns pelos outros. A Índia entra no caso, pois sempre impôs respeito ao Paquistão. O Afeganistão entra neste drama pois, com o atentado a Benazir Bhutto colocou um fim ao ideal politico desejado para tornar o Paquistão num país estabilizado, pois está em causa o pacto com Islamabad, que pretendia a neutralidade no Afeganistão, bem como combater as milícias islamistas e as redes extremistas.
Relativamente ao Irão, este é um país que se envolve com o Paquistão pois poderá envolver-se com este numa possível crise de proliferação nuclear, que será uma realidade bem possível, tendo em conta as actuais características do Paquistão.

Esperemos para saber como tudo isto irá terminar.