quarta-feira, 21 de maio de 2008

Arestides Sousa Mendes


Sacrificou tudo quanto amava e presava - uma família, uma carreira - por estranhos de quem se apiedou associando ao seu honroso desempenho a espiritualidade e dignidade humana então raras, mas que, afinal, caracterizam o povo português. Numa altura em que pairava a rebeldia pelo mundo, Sousa Mendes não só era um digno diplomata como também se desenhava como o modelo do português crítico, o representante ideal da nação que todos gostaríamos que Portugal sempre fosse.
As suas atitudes tinham o cheiro do perfume cuja marca a lei portuguesa só viria a reconhecer tardiamente. Ainda assim, aos olhos dos poucos que um dia ouviram falar de Sousa Mendes, a mais viva recordação que resta deste "salvador de vidas" português é a punição desumana que lhe foi atribuida: Salazar e seus discípulos condenaram-no à "pena de um ano de inactividade" com direito apenas a "metade do vencimento da categoria", tendo sido colocado "na disponibilidade aguardando aposentação", situação da qual só viria a se livrar com a morte, mais de 13 anos depois.

Quando os Nazis invadiram a França em 1940, Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus, contrariando as ordens de Salazar, assinou vistas para fugitivos. Assim conseguiu salvar milhares de vidas, antes de ser afastado do cargo pelo ditador.
Em 1940, dado o avanço das tropas alemãs de Norte para Sul e de Leste para Oeste, só Portugal era porta de saída segura para um algures a salvo dos desígnios de Hitler. Eis porque, solicitando um visto, acorriam ao consulado português de Bordéus inúmeros refugiados, sobretudo judeus. Mas a 13 de Novembro de 1939 já Salazar proibira, por circular, todo o corpo diplomático português de conceder vistos a várias categorias de pessoas, inclusive a "judeus expulsos dos seus países de origem ou daqueles donde provêm".
Aristides começou por ignorar a circular para, depois de instado a fazê-lo, a desrespeitar totalmente. Passava vistos a quantos lho solicitassem. Quando a 8 de Julho de 1940, já sem mais hipóteses de transgressão, regressou a Portugal. Tinha salvo milhares de vidas, assinando vistos de dia e de noite, até à exaustão física.

Nada na biografia de Aristides, até então, fazia prever este acto. Com 55 anos à data dos acontecimentos, casado e pai de 14 filhos, servia o "salazarismo (fascismo) tal como antes servira a I República. Era de tradiçao monárquica e católico. Foi simplesmente comovido pela aflição de "toda aquela gente" que não "podia deixar de me impressionar vivamente", como ele disse no seu processo de defesa em Agosto de 1940, que agiu.

Regressando a Portugal, Aristides foi dado como culpado no inquérito disciplinar e despromovido. Salazar reformá-lo-ia compulsivamente com uma pensão mínima. Os recursos de Aristides para os tribunais seriam em vão. Sem dinheiro, Aristides era socorrido pelo irmão e pela comunidade judia portuguesa.

Salazar e seus discípulos condenaram-no à "pena de um ano de inactividade" com direito apenas a "metade do vencimento da categoria", tendo sido colocado "na disponibilidade aguardando aposentação", situação da qual só viria a se livrar com a morte, mais de 13 anos depois.

Do recheado solar da família, em Cabanas de Viriato (Viseu), tudo ia sendo vendido. Os filhos de Aristides iam-se dispersando, a mulher Angelina, morreu em 1948 , e ele casou novamente mais tarde.

No dia 3 de Abril de 1954, Aristides morre de uma trombose cerebral e de uma pneumonia no Hospital da Ordem Terceira em Lisboa. Embora o epitáfio na sua lápide reconheça os méritos de Aristides com as palavras "Quem salva uma vida, salva o mundo", a sua morte não veria qualquer comentário ou informação na imprensa portuguesa.

Seria assim ignorado pelo país.

Ter-se-ia de esperar 34 anos para que Aristides fosse justamente reintegrado e louvado oficialmente em Portugal: Em 1988 na Assembleia da República, o Dr. Jaime Gama, pediu a reabilitação e reintegração póstuma de Aristides no corpo diplomático, o que foi concedido por unanimidade pelos partidos com assento na altura.

Mas desde 1967, Aristides é o único português que faz parte dos "Righteous Among the Nations" (Justo entre as Naçoes), no Yad Vashem Memorial em Israel.

Ele bem o merece, porque "quem salva uma vida, salva o mundo".


Fonte: http://www.sousamendes.com/zindex.htm (adaptado)


2 comentários:

Vasco PS disse...

Finalmente é tempo de se prestar aqui, no nosso estimado blogue, a merecida homenagem ao maior herói português, cuja história de vida me foi dada a conhecer até hoje.

Aristides de Sousa Mendes é, sem dúvida, uma figura marcante da História do nosso país, um motivo de orgulho, um exemplo a seguir. Devia ser motivo de estudo por todos os portugueses, enquanto alunos integrados na escolaridade obrigatória. Falamos de um HOMEM que, como poucos, pode assim ser tratado, com sinceridade. A sua acção salvou milhares de vidas humanas, como nenhum outro fez durante este negro período da história, o Holocausto.

Hoje, graças a ele, existem os “filhos de Aristides”, gerações que lhe devem o facto de estarem vivas, terem podido participar nas mudanças do último século, terem continuado a sua própria história. Fico triste, confesso-vos, que em Portugal tão pouca gente saiba quem foi Aristides de Sousa Mendes e, assim, só posso ficar grato por o professor ter dedicado este post a esta personalidade marcante.

Espero que todos os que por aqui passem possam deixar também a sua mensagem de apreço a Sousa Mendes, reflectindo sobre o que ele e todos os que agiram como ele significam para nós, cidadãos livres, cientes do passado e desejosos do futuro.

Não tenho dúvidas de que Aristides ao arriscar tudo na sua vida, para salvar a de tantas pessoas que não conhecia sequer, acabou por salvar o mundo. São estes gestos que salvam o mundo, que nos salvam enquanto Humanidade.

Concluo, reafirmando a minha mais sentida admiração por Aristides de Sousa Mendes. Como ele afirmou: “Antes com Deus contra os Homens, do que com os Homens contra Deus”.

Se todos os homens fossem como Aristides de Sousa Mendes, então nenhum homem necessitaria jamais de Deus.

Rute Cruz disse...

Arestides Sousa Mendes foi sem dúvida, um grande português. Deve ser sempre recordado para que continue a ser dado como um exemplo de um homem com uma grande honra, sensibilidade e humanidade. Tendo com este espírito, salvado milhares de judeus que na época fugiam às tropas nazis. Se Portugal era um lugar, que naquela altura, poderia acolhê-los, por que razão é que não o deveria fazer? É por estas e por outras que Salazar é considerado uma pessoa sem escrúpulos.
Para salvar milhares de inocentes, Arestides abdicou do seu cargo, pois de alguma maneira, quando começou a desautorizar Salazar, assinando vistos, já sabia que de algum modo o seu cargo como diplomata poderia ser severamente afectado. Não sei se muitos teriam tido essa coragem. É provável que não, e por isso é que Arestides é reconhecido como sendo uma grande personalidade do século XX. Pelos vistos os mais beneficiados pela sua acção também ainda não o esqueceram e continuam a homenageá-lo em Israel.